Mapa da Europa com tabela das taxas de falhas de acessibilidade digital por país, destacando a Noruega com o melhor resultado (84,45%).

93% dos websites europeus falham requisitos de acessibilidade.

A acessibilidade digital deixou de ser uma preocupação futura. É uma exigência presente, legal e estratégica.

Ainda assim, os dados mais recentes do Digital Trust Index 2025, que analisou mais de 266.000 páginas iniciais de websites em 18 países europeus, revelam uma realidade que merece atenção: 93% dos websites continuam a falhar requisitos básicos de acessibilidade.

Este número representa uma melhoria inferior a 1% face ao ano anterior.

À primeira vista, isto pode parecer progresso. Mas quando analisamos mais profundamente, percebemos que não se trata de uma transformação estrutural — trata-se de uma evolução lenta, irregular e insuficiente face à urgência do momento.

Pessoa em cadeira de rodas a trabalhar num computador portátil numa reunião de escritório com colegas.A acessibilidade digital é hoje um fator essencial de confiança digital

Nunca dependemos tanto do digital como agora. O acesso a serviços essenciais — como operações bancárias, marcação de consultas médicas, educação, trabalho remoto, serviços públicos ou até comunicação com familiares — acontece, na sua maioria, através de interfaces digitais. O website deixou de ser apenas um canal de informação. Tornou-se uma porta de entrada para a participação plena na sociedade moderna.

Mais de 100 milhões de europeus vivem com algum tipo de deficiência, seja permanente, temporária ou situacional. Para estas pessoas, uma barreira digital não é apenas um inconveniente técnico — é uma limitação real à sua autonomia, produtividade e independência. Um formulário que não pode ser preenchido com teclado, um botão que não é identificado por um leitor de ecrã ou um contraste insuficiente podem impedir o acesso a serviços essenciais, desde gerir uma conta bancária até submeter uma candidatura de emprego.

Mas o impacto vai além das pessoas com deficiência. Interfaces digitais acessíveis beneficiam todos os utilizadores — incluindo pessoas idosas, utilizadores com menor literacia digital, colaboradores em ambientes de trabalho com elevada pressão operacional, e qualquer pessoa que dependa de navegação rápida, clara e sem ambiguidades para executar tarefas com eficiência.

Quando um website não é acessível, a experiência torna-se incerta, frustrante e, muitas vezes, incompleta. O utilizador perde confiança, abandona o processo e procura alternativas.

A acessibilidade digital não é apenas um requisito técnico ou legal. É um reflexo direto da qualidade, maturidade e responsabilidade de uma organização no ambiente digital atual.

Mapa-mundo com destaque para países europeus e respetivas taxas de falhas de acessibilidade digital.A análise por país revela uma evolução desigual — e um problema estrutural comum

Quando analisamos os dados por país, surge um padrão muito claro: todos os países falham — a diferença está apenas na intensidade.

Os países nórdicos continuam a liderar o ranking europeu:

  • Noruega: 84,45% de falha
  • Suécia: 86,28%
  • Finlândia: 86,54%

Estes resultados mostram progresso real, especialmente na Noruega e Suécia, que conseguiram reduzir significativamente as taxas de falha face ao ano anterior.

No entanto, mesmo os melhores resultados continuam a indicar que a maioria dos websites apresenta barreiras.

Portugal surge com uma taxa de falha de 95,02%, posicionando-se na 10.ª posição entre os 18 países analisados. Este valor coloca o país no grupo com maior nível de falhas, juntamente com mercados como Espanha, Itália, República Checa, Roménia e Hungria, que registam os piores resultados do estudo.

Este enquadramento demonstra que o desafio da acessibilidade digital não é isolado nem circunstancial — é um problema sistémico que afeta a maioria dos ecossistemas digitais europeus, incluindo os mais desenvolvidos.

Esta distribuição revela um ponto crítico: a acessibilidade ainda não é uma prática integrada de forma consistente no desenvolvimento digital europeu.

Não se trata de uma falha tecnológica. Trata-se de uma falha de processo.

Pessoa a analisar gráficos e relatórios num ambiente de trabalho.O progresso existe, mas está a desacelerar — e isso é um sinal de alerta

A melhoria global inferior a 1% revela uma realidade importante: a acessibilidade está a melhorar, mas não ao ritmo necessário.

Alguns países registaram melhorias relevantes. Outros estagnaram. Alguns até pioraram.

Este comportamento irregular indica que a acessibilidade ainda depende mais de iniciativas individuais do que de uma mudança estrutural no ecossistema digital.

Na prática, isto significa que muitas organizações continuam a tratar a acessibilidade como uma correção, e não como uma base.

Sem integração nos processos de design, desenvolvimento e governação digital, o progresso continuará a ser lento.

Pessoa a utilizar um computador portátil com o símbolo do European Accessibility Act (EAA) no ecrã.O European Accessibility Act criou urgência — mas não criou maturidade instantânea

Com a entrada em vigor do European Accessibility Act em junho de 2025, a acessibilidade digital deixou de ser apenas uma boa prática recomendada e passou a ser uma exigência legal para muitas organizações que disponibilizam produtos e serviços digitais na União Europeia. Este novo enquadramento veio reforçar a importância de garantir que websites, plataformas e aplicações possam ser utilizados por todos, independentemente das suas capacidades.

No entanto, os dados mostram que a maioria das organizações ainda está numa fase inicial desta transição. Em muitos casos, a acessibilidade está a ser abordada de forma reativa, impulsionada pela necessidade de cumprir requisitos legais ou evitar riscos, e não como parte integrante da estratégia digital.

Isto tem levado a um aumento de intervenções corretivas realizadas sob pressão, frequentemente focadas em resolver sintomas visíveis, mas sem integrar a acessibilidade de forma estrutural nos processos de design e desenvolvimento.

Existe uma diferença clara entre um website que cumpre requisitos mínimos e um website que é verdadeiramente acessível, consistente e preparado para evoluir. A conformidade pode ser um ponto de partida, mas é a maturidade digital que garante acessibilidade sustentável ao longo do tempo.

Computador portátil com ícones de acessibilidade e símbolos de alerta, representando erros de acessibilidade digital.Os mesmos problemas continuam a repetir-se — e são evitáveis

Os erros mais comuns identificados são consistentes em toda a Europa e repetem-se independentemente do país, setor ou nível de maturidade digital:

  • Falta de contraste adequado entre texto e fundo, dificultando a leitura.
  • Imagens sem descrição textual, tornando o conteúdo inacessível para utilizadores de leitores de ecrã.
  • Links e botões sem identificação clara, comprometendo a navegação.
  • Estruturas incompatíveis com tecnologias de apoio, como navegação por teclado ou leitores de ecrã.
  • Definições incorretas de idioma, afetando a interpretação correta do conteúdo.

Estes problemas são amplamente conhecidos, estão documentados nas normas internacionais e, na maioria dos casos, são relativamente simples de evitar quando existe uma abordagem estruturada.

O facto de continuarem a surgir de forma consistente demonstra que a acessibilidade ainda não está plenamente integrada nos processos de conceção e desenvolvimento digital. Quando tratada apenas como uma verificação posterior, as barreiras já fazem parte do sistema.

A acessibilidade deve ser considerada desde o início — como um princípio de design e qualidade, e não apenas como uma etapa de validação.

Robô com inteligência artificial a utilizar um computador portátil, representando tecnologia digital e Inteligência artificialA inteligência artificial está a transformar a experiência digital — e a acessibilidade deve evoluir com ela

A inteligência artificial, especialmente através de chatbots e assistentes virtuais, está a transformar a forma como as organizações interagem com os seus utilizadores. Estas tecnologias permitem respostas mais rápidas, maior eficiência operacional e uma experiência mais personalizada, tornando-se um elemento cada vez mais presente em websites, plataformas de suporte e serviços digitais.

Quando bem implementada, a IA pode também contribuir positivamente para a acessibilidade, facilitando o acesso à informação e simplificando processos complexos.

No entanto, como qualquer tecnologia emergente, a sua adoção traz novos desafios que precisam de ser avaliados e acompanhados com cuidado. Estudos recentes mostram que muitos chatbots ainda apresentam barreiras significativas de acessibilidade, incluindo:

  • Incompatibilidade com leitores de ecrã.
  • Impossibilidade de navegação completa através do teclado.
  • Falta de indicadores visuais claros e estados de foco visíveis.

Estes desafios não diminuem o valor da inteligência artificial — pelo contrário, reforçam a importância de garantir que a acessibilidade evolui em paralelo com a inovação.

A tecnologia tem o potencial de tornar o ambiente digital mais inclusivo. Para isso, é essencial que a acessibilidade faça parte do processo desde o início, assegurando que estas novas ferramentas beneficiam todos os utilizadores.

 Equipa a colaborar em frente a um computador, representando a integração da acessibilidade digital no processo de desenvolvimento desde o início.O verdadeiro ponto de viragem começa quando a acessibilidade deixa de ser uma correção

A principal conclusão desta análise é clara: a acessibilidade digital não pode continuar a ser tratada como uma intervenção corretiva ou uma etapa final de validação. Quando é considerada apenas no final de um projeto, as barreiras já estão incorporadas na arquitetura, tornando a sua resolução mais complexa, mais dispendiosa e menos eficaz.

Organizações que integram a acessibilidade desde o início — no design, desenvolvimento e tomada de decisão — beneficiam de vantagens estruturais claras:

  • Menor custo e esforço de correção ao longo do tempo.

  • Maior robustez e qualidade técnica das plataformas digitais.

  • Melhor experiência e confiança por parte dos utilizadores.

  • Menor exposição a riscos legais e regulamentares.

  • Maior alcance, inclusão e impacto dos seus serviços.

Mais do que uma exigência legal, a acessibilidade é um indicador direto da maturidade digital e da capacidade de uma organização construir experiências sustentáveis, resilientes e preparadas para o futuro.

À medida que o ambiente digital continua a evoluir, a acessibilidade deixa de ser um diferenciador e afirma-se como um requisito essencial de qualidade. As organizações que reconhecem esta mudança e atuam de forma estruturada não estão apenas a responder a requisitos normativos — estão a construir bases digitais mais sólidas, mais eficientes e mais preparadas para evoluir.

 Pessoa a utilizar recursos de acessibilidade num website, representando a implementação de acessibilidade digital na prática.O caminho está definido — e a tecnologia é parte da solução

Apesar deste cenário, a realidade é que a maioria das barreiras de acessibilidade digital é conhecida, documentada e tecnicamente solucionável. Problemas como contraste insuficiente, ausência de descrições em imagens, estruturas incompatíveis com navegação por teclado ou elementos não reconhecidos por leitores de ecrã podem ser identificados e corrigidos de forma estruturada, especialmente quando existe uma abordagem que combina conhecimento técnico, processos adequados e o apoio de tecnologias especializadas.

Nos últimos anos, assistimos também a uma evolução significativa no papel da inteligência artificial na acessibilidade digital. Quando utilizada de forma responsável, a IA pode contribuir para identificar barreiras, melhorar a legibilidade, adaptar interfaces e complementar o trabalho técnico das equipas, acelerando o processo de melhoria contínua.

Ainda assim, é importante reconhecer que a tecnologia, por si só, não resolve o problema. A acessibilidade é, acima de tudo, uma decisão estratégica e um compromisso com a qualidade e a inclusão. Na prática, o verdadeiro progresso acontece quando as organizações integram a acessibilidade de forma consistente — não como uma obrigação pontual, mas como parte natural da construção do seu ecossistema digital.

Por esse motivo, embora o desafio seja significativo, o caminho está claramente definido. E, cada vez mais, torna-se não apenas evidente, mas inevitável.

A EqualWeb Portugal acompanha organizações na integração estrutural da acessibilidade digital, através de auditoria, tecnologia e apoio técnico especializado.

Compartilhe este post